ILUSTRES DA TERRA
FREI PEDRO DIAS - O SANTO DE ARADAS (1457 - 1528)
Pedro Dias nasceu em Aradas por volta do ano de 1457. Muito pobre e analfabeto, para ganhar a vida fez-se embarcadiço. Um dia, quando se preparava para mais uma viagem longa, dirigiu-se ao Convento de S. Domingos, em Aveiro, para se confessar e comungar. O confessor, surpreendido com ele, convidou-o a entrar para o Convento. Embora receasse ser mal recebido pelos frades, por não saber ler, Pedro aceitou e tornou-se frade leigo. O Prior nomeou-o porteiro, lugar que desempenhou no Convento de Aveiro e depois no de Évora, para onde foi transferido anos mais tarde. Levou uma vida de humildade e auto-exigência quase inacreditáveis: não comia carne nem bebia vinho; jejuava todos os dias, com excepção dos Domingos e Dia de Natal; nunca vestiu um hábito novo – só usava os velhos que os companheiros já tivessem deixado de vestir; não quiz cela nem cama própria onde pudesse repousar – passava as noites na igreja, de joelhos nus no chão, a rezar: quando o sono o vencia, continuando de joelhos estendia as mãos no chão à sua frente, apoiava nelas a cabeça... e era assim que dormia um pouco, para logo voltar à oração. Os pobres, que acudiam à portaria do Convento a procurar comida, chamavam-lhe Pai – tal era o carinho e atenção com que cuidava deles. A fama da sua estreita ligação com Deus, através da oração, era tão grande que o próprio Rei D. Manuel I – o Venturoso –, de visita a Évora, procurou Frei Pedro para a Rainha D. Maria, que o acompanhava, poder pedir-lhe que a inclui-se nas suas orações.
Foi essa vida de auto-exigência extrema, a obediência sem reservas, o cuidado estremoso posto no serviço dos mais pobres, a oração permanente e o dom da profecia de que tantas vezes deu provas que lhe trouxeram, ainda em vida, a aura de santidade.
Faleceu em Évora, no dia 8 de Janeiro de 1528, com a fama de Santo atribuida pelo povo simples – que o canonizou. O seu nome, como S. Pedro Bom, é memorado no Missal Romano no dia 9 de Janeiro.
Na Paróquia de Aradas existe uma imagem sua, em escultura de madeira da segunda metade do Século XVI, que o mostra em traje Dominicano.

CATARINA DE ATAÍDE (? - 1551)
Catarina de Ataíde, filha de Álvaro de Sousa, senhor de Eixo e Requeixo, foi dama da corte da rainha D. Catarina, esposa do rei D. João III. Tornou-se senhora de Verdemilho pelo casamento com Rui Pereira Borges de Miranda, que herdara de seu pai, António Borges de Miranda, o senhorio de Carvalhais, Ílhavo e Verdemilho. Esta herança foi invulgar, porque Rui era filho do casamento do seu pai, em segundas núpcias, com D. Antónia de Barredo, e havia filhos do primeiro casamento, Simão e Gonçalo Borges, que dela foram espoliados. O casal escolheu Verdemilho para viver — o que não deixou de ser uma distinção importante para a então Vila de Milho.
Catarina de Ataíde era uma senhora muito devota e de rara beleza. Segundo a opinião da generalidade dos historiadores, era ela a Natércia da lírica de Luís de Camões. Aparentemente, foi a grande paixão da juventude do poeta, a quem esse amor impossível custou quatro desterros: primeiro de Coimbra para Lisboa; depois para Santarém; de seguida para Ceuta; e, finalmente, para a Índia, de onde voltou pobre já depois do falecimento da sua amada. Mais do que a sua linhagem, foi a circunstância de ter sido a musa inspiradora de belos e sentidos poemas de Luís de Camões que fez com que o nome de Catarina de Ataíde ficasse para a posteridade.
Catarina de Ataíde faleceu em Verdemilho, em 28 de Setembro de 1551. Foi sepultada na capela-mor do antigo convento de S. Domingos, em Aveiro. Hoje, o seu túmulo pode ainda ver-se no átrio de entrada da Sé de Aveiro, numa capela, cuja autoria é atribuída a João de Ruão, localizada à esquerda da porta principal daquele templo.
Tem a seguinte inscrição: «Aqui jaz Catarina de Ataíde, filha de Álvaro / 89 / de Sousa e de D. Filipa de Ataíde. Neta de Diogo Lopes de Sousa e por ser devota desta casa lhe deixou vinte mil réis de juros. Tem por isso missa quotidiana e lhe deram capela, bem como a seu pai, mãe e herdeiros. 28 de Setembro de 1551.
E a Natércia da poesia lírica de Luís Vaz de Camões, tendo sido a grande paixão da juventude do poeta e sua musa inspiradora.

MANUEL MENDES BARBUDA E VASCONCELOS (1607 – 1670).
Nasceu e foi sepultado em Verdemilho. Foi Magistrado, poeta e Cavaleiro da Corte de D. Afonso VI.

D. FREI MIGUEL DE BULHÕES E SOUSA (1706 – 1780).
Natural de Verdemilho, foi Bispo de Malaca, do Grão-Pará e de Leiria. Foi muito importante o seu papel religioso e politico no Brasil.

DESEMBARGADOR JOAQUIM JOSÉ DE QUEIRÓS (1774 – 1850)
Joaquim José de Queirós nasceu nas Quintãs (Aveiro) a 09 de Janeiro de 1774, mas viveu em Verdemilho, na casa apalaçada que ainda hoje existe na rua que tem o seu nome (Rua Conselheiro Queirós). Aí faleceu, em 16 de Abril de 1850. A casa, actualmente em deplorável estado de ruína, é agora conhecida por Casa Eça de Queirós, pelo facto de o escritor, seu neto, nela ter vivido a sua meninice, entre 1848 e 1855. Após o falecimento da viúva do Sr. Conselheiro, D. Teodora Joaquina, em 1855, o prédio teve diversos usos. Aqueles que recordo é de lá ter funcionado, durante muitos anos, a secção de moagem da fábrica de José dos Santos Capela; depois, durante um tempo, foi salão de bailes e a seguir depósito de garrafas de gás doméstico. Como a grande placa que lá está afixada indica, há, de há anos, a promessa de ser recuperado e devolvido a uma finalidade consentânea com a sua história. Mas ainda não foi cumprida...
O Conselheiro Queirós, importante figura nacional da sua época, foi Magistrado, Ministro da Justiça, Conselheiro de Estado, Fidalgo Cavaleiro da Corte de D. Maria II e Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo. O seu nome é histórico pelo facto de ter chefiado o primeiro levantamento liberal contra o regime absolutista do rei D. Miguel, a Revolta de 16 de Maio de 1828. Em capítulo anterior, a propósito da Fonte da Arregaça, já dei conta das vicissitudes por que passou pelo facto de ter falhado esse pronunciamento militar.
A figura do Conselheiro Queirós ainda não está esquecida pelo povo de Verdemilho. O seu nome figura na nossa toponímia. Há também a sua campa no nosso cemitério, com um obelisco evocativo, mandada erigir pela Junta Militar de 1932.

ACÁCIO VIEIRA DA ROSA (1871-1955).
Nascido em Verdemilho, em 5 de Janeiro de 1871, Acácio Rosa foi companheiro de Liceu e de Seminário de D. João Evangelista de Lima Vidal, de quem era amigo íntimo, bem como de importantes figuras políticas e intelectuais dos últimos anos da monarquia. Em 1893, com apenas 22 anos de idade, publicou o seu primeiro livro: A Nossa Independência e o Iberismo. Entre 1894 e 1911 editou o jornal "Vitalidade", cujas páginas foram palco de episódios decisivos da luta política entre regeneradores-liberais e republicanos. As suas contendas com Homem Cristo, com quem mais tarde, já cego, se reconciliou num encontro casual em sua casa, ficaram célebres.
Acácio Rosa era monárquico. Foi pela monarquia que combateu nas páginas do seu jornal. Com a implantação da república em 1910 — acontecimento que o obrigou, na sua qualidade de funcionário público, a aderir formalmente a ela! — O seu jornal ficou ferido de morte. Em breve se viu constrangido a ter de o encerrar. Tempo depois sofreu novo golpe, ainda mais duro e definitivo: foi atacado de cegueira, galopante e irreversível. Como diz Manuel Ferreira Rodrigues (9): «A cegueira remeteu-o para um esquecimento de muitos anos na sua casa cor-de-rosa, em Verdemilho, entre as árvores e as flores que amava e os amigos que jamais o abandonaram.
As incidências da vida, nas condições de então, impediram que um talento potencial extraordinário pudesse ter tido o seu curso normal, ao serviço da comunidade, interrompendo-o abruptamente. Acácio Rosa, que era primo do meu pai, faleceu em Verdemilho em 20 de Fevereiro / 102 / de 1955. Repousa no nosso cemitério. O seu nome é recordado na toponímia de Verdemilho. No Largo Acácio Rosa situam-se a Igreja Paroquial e a sede da Junta de Freguesia.

DR. ALBERTO SOUTO (1888 - 1961).
Advogado, politico, investigador de arte e de história, orador, e jornalista, este natural de Bonsucesso foi uma figura marcante do concelho de Aveiro na primeira metade do século xx.

MAJOR DR. ANTÓNIO TAVARES LEBRE (1882 - 1966).
O Dr. António Tavares Lebre, nasceu na Quinta do Picado em 21 de Março de 1882. Residiu em Verdemilho, na Quinta de Nossa Senhora das Dores, de que era proprietário. Faleceu em 11 de Fevereiro de 1966.
Medico veterinário e Oficial de Cavalaria, desempenhou funções de relevo na organização do sistema de saúde veterinária de Angola. Em Verdemilho, no seu Solar de Nossa Senhora das Dores, organizava anualmente uma das mais concorridas romarias do Norte de Portugal.
Esta romaria, alias, a maior da freguesia, a de N.ª Sr.ª das Dores em Verdemilho, que atraía romeiros de todo o Norte e Centro do País e justificava carreiras especiais de autocarro entre a estação da C.P e a Capela da N.ª Sr.ª das Dores.
Com o falecimento do Major Dr. António Lebre, proprietário da Capela, em meados da década de sessenta, a romaria foi-se extinguindo ate desaparecer nos primeiros anos da década de setenta.
O Dr. António Tavares Lebre repousa no nosso cemitério, em mausoléu de família e o seu nome é recordado na nossa toponímia pela Rua Capitão Lebre, em Verdemilho.

PADRE DANIEL CORREIA RAMA (1902 – 1978).
O senhor vigário, como era chamado, foi pároco de Aradas durante 50 anos, entre 1925 e 1975. Foi figura de maior relevo no meio social da freguesia.

DR. ERNESTO NUNES DE PAIVA (1904 - 1982).
Ernesto Nunes de Paiva nasceu em Verdemilho, em 3 de Janeiro de 1904. Faleceu em 17 de Julho de 1982. O Dr. Paiva (ou Dr. Piolho, como alguns também lhe chamavam), Filho de lavradores relativamente modestos, com parcos recursos, o pequeno Ernesto manifestou desde criança o desejo de ser médico. Com tal intensidade que os pais, embora a custo, acabaram por decidir fazer tudo o que fosse necessário para que ele pudesse estudar. A vida era então muito difícil. Por isso, o Ernesto teve de partilhar os sacrifícios dos pais e irmãos, trabalhando na lavoura após as aulas, bem como nas férias, mesmo quando já era universitário.
Licenciado em Coimbra, em 1930, montou consultório em Verdemilho, que manteve até ao fim dos seus dias. Além do consultório e das visitas domiciliárias que fazia, que eram tantas quantas lhe solicitassem, também deu consultas, durante muitos anos, no Centro de Saúde de Aveiro, na Casa do Povo de Aradas e no Centro Paroquial de S. Bernardo.
Pela sua devotada acção em favor do povo, ao longo de mais de meio século, sem outro interesse que não fosse o de ser útil e aliviar o sofrimento do seu semelhante, o Dr. Paiva foi um ser humano de eleição que honra a terra que o viu nascer. A gratidão da nossa gente foi-lhe expressa em vida pelo busto e pelo seu nome dado a uma rua da freguesia, no lugar de Aradas.


Galeria Fotográfica
Lugar da Freguesia - Aradas
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Ideias e Projectos - 2017